Um Problema de Peso na Coreia

안녕 안녕 여러분!

Hoje vim falar sobre um assunto um pouquinho mais sério, depois de uma profunda discussão sobre o assunto com a minha amiga da Hungria. Porque, principalmente para o pessoal que admira a Coreia e a põe num patamar acima de outros países (e acima do próprio Brasil), é importante lembrar que a Coreia não é perfeita, todo país tem seus problemas e precisa de ajuda para focar neles e resolvê-los, pois quanto mais pessoas conscientes e a par da situação, com certeza, aos poucos, esses problemas podem vir a diminuir.

Queria lembrar que esse é um blog pessoal, onde expresso minha opinião, baseada em ambas vivência própria e constante pesquisa na Internet, tanto por artigos ou depoimentos de terceiros. Comentários estão abertos para ouvir a opinião de vocês também!

Não é novidade que a Coreia do Sul vive em obsessão pela beleza exterior. As colegas de quarto coreanas que eu tive/tenho levavam, em média, duas horas se maquiando — apenas maquiagem; sem contar arrumar o cabelo e roupa — mesmo que fossem sair por trinta minutos, e se fossem sair apenas para comprar algo na esquina, não saiam sem boné e blusão com capuz, para esconder o rosto sem maquiagem. Também não é novidade a facilidade na qual as pessoas fazem cirurgia plástica. Esse já é um assunto mais delicado, pois eu concordo que se a pessoa não está feliz com sua aparência, é direito dela mudar, mas o assunto fica mais complexo quando essa mudança não é exatamente por causa da perspectiva da pessoa de beleza, mas da sociedade coreana — v line, double eyelid, pele clara, etc. Já vi, nos metrôs de Seoul, uma propaganda dizendo “Mãe, você não é mais tão bonita, vamos na clínica!” Um pouco chocante.

Mas abordar todos esses assuntos num só post tornaria o texto exageradamente longo e cansativo, e sobre o que eu quero falar, na verdade, chega a ser um problema mundial, mas visto por “olhares coreanos” muda de figura.

O preconceito com pessoas “acima do peso”, em todo o mundo, tem se revelado enorme, fazendo agora parte da gama de assuntos onde terceiros não conseguem cuidar da própria vida e precisam opinar sobre com quem outros devem ou não se casar, controlar o direito de uma mulher abortar, e criticar o corpo dos outros. Para não fugir do assunto do post, eu não vou expressar minha opinião sobre como eu repudio essas atitudes em si.

O problema, na Coreia, é que isso não é visto como discriminação, por estar enraizado com força na percepção de beleza sul-coreana. O apresentador Jeon Hyeonmu já expressou o preconceito na Coreia do Sul como “ignorante”, no sentido em que falta mais informação e uma visão mais ampla sobre a sociedade e sua variedade de características. E isso, infelizmente, dificulta mais ainda para que o problema seja visto, de fato, como um problema.

Mesmo que muitos coreanos já tenham tendência de serem mais magros, as mulheres com menos curvas, seria exagero falar que essa é a fisionomia da maioria dos coreanos, mas a indústria de roupas responde dessa maneira: tamanhos únicos que equivalem a uma menina de doze anos no Brasil e vestem uma miséria da população, e uma variedade limitada e triste de tamanhos.

Não é preciso muito para ser considerada gorda na Coreia do Sul. O primeiro passo é: ser mulher. Ninguém liga se um homem é gordo, se ficou acima do peso, se seu rosto está mais arredondado e etc — claro que existem casos, mas em prol de um post objetivo estou falando da maioria dos casos: se você é mulher, basta uma coxa mais grossa, um rosto mais arredondado, uma cintura mais larga, para ouvir de terceiros que você deveria se cuidar mais. E isso guia para outra barreira; a relação de “saúde” com “não ter um corpo padrão de beleza.” Existem todos os tipos de fisionomias no mundo, mesmo num país onde dizem nascer “pessoas naturalmente magras” vai ter uma variedade de tipos físicos que não tem relação alguma com não ser saudável.

Antes de escrever esse post, eu observei severamente as pessoas na rua, apenas para perceber que têm mais coreanas abaixo dos 170cm e longe do padrão de magreza esperado, do que as models-like que viram cartão postal do país. Claro, vemos meninas com cintura de criança e pernas exageradamente finas com facilidade, mas o ponto que eu quero destacar é que elas não são maioria, nem minoria, elas existem da mesma forma que outros tipos físicos. Parte por naturalmente serem assim, parte por se submeterem a regimes que prometem tal “corpo perfeito.”

O programa Hello Counselor, que ajuda a resolver problemas entre família e amigos, já contou com inúmeras histórias de filhas sendo pressionadas a perderem peso. Enquanto histórias sérias, como uma coreana que ganhou 30kg por comer frango frito todos os dias e preocupar o pai por sua saúde, são raras, histórias de meninas com um corpo completamente saudável sendo forçadas a perder peso aparecem em maioria.

cacete

No episódio do dia 27 de maio de 2013, com Shinhwa, uma menina foi ao programa porque era privada de comer regularmente porque sua mãe a achava gorda. Em qualquer outro país do mundo, a menina estaria longe, léguas de distância, de ser considerada em risco por causa de seu peso, mas essa é uma realidade que meninas sul-coreanas enfrentam regularmente. O discurso do “mas não é saudável ser gordo” enche a boca da sociedade, mas saúde não se determina apenas por aparência.

No mesmo programa, em um episódio com o f(x), um homem da plateia atacou diretamente as integrantes do grupo dizendo que elas precisavam todas perder peso, sendo ainda específico sobre onde deveriam fazê-lo. O episódio em questão foi na época de Rum Pum Pum Pum. Vocês acham que qualquer uma delas deveria perder mais peso? Amber não se conteve e respondeu com firmeza, se impondo de uma forma que muitos deveriam sobre o assunto.

Outro lado decepcionante da história é no mundo do entretenimento. Não é só na Coreia que ídolos se submetem aos regimes mais extremos, e nem preciso dizer que as mulheres são muito mais julgadas quando não estão “magras como deveriam estar.” Ailee já revelou ter perdido 10kg em um mês, apenas para realizar seu comeback, dentro outros casos de ídolos (masculinos também) que aparecem surpreendentemente — e exageradamente — magros em um curto intervalo de tempo. Enquanto alguns fãs se preocupam com a saúde deles, outros atacam mesmo os mais inocentes dos chamados “pneuzinhos.” Um exemplo foi Lee Hyori, que não segurou uma resposta quando foi atormentada pela mídia quando suas costas foram notadas com “excesso de gordura” por cima da barra de sua roupa, onde ela se expressou dizendo “Nosso corpo muda quando envelhecemos e não podemos fazer nada contra a natureza do ser humano.”

O grupo Piggy Dolls apareceu em 2011 querendo quebrar esse conceito, mas quase ninguém comentava sobre o talento das integrantes, apenas sobre a aparência inaceitável para o mundo dos idols. Em seu comeback, elas retornaram com a imagem esperada; magras.

           

No outro lado, G.NA não teve receio em falar que ganhou cinco quilos antes um comeback, depois de ser diagnosticada abaixo do peso — porque o entretenimento se preocupa muito no “acima do peso” e esquece do oposto.

A plus size Vivian Kim está tentando levar essa mensagem à diante com uma revista sobre ser saudável além da aparência, a 66100. O título expressa os tamanhos que são considerados plus size na Coreia do Sul, 66 sendo o tamanho para mulheres e 100 para homens. No Brasil, o tamanho 66 é o tamanho M. Assustador, certo?

Eu espero, sinceramente, que essa visão desapareça da sociedade sul-coreana, mesmo que aos poucos, mesmo que demore, o importante é ninguém abandonar qualquer luta que seja contra o preconceito e discriminação, pois só assim podemos fazer alguma diferença, mesmo que mínima. Como muitos que leem o blog são fãs de K-POP, façam a sua parte e não comprem esse discurso de que somente magreza equivale à beleza.

Pra mim, você só pode chamar alguém de gordo ou magro baseado em um referencial. Eu sou mais gorda que muita gente, e mais magra que muitas outras, ou eu sou mais gorda ou mais magra do era antes. Também acho que não há problema nas palavras gordo e magro, é uma característica como ser alto ou baixo, mas infelizmente sei que, principalmente a palavra gordo, carrega um sentido pejorativo para a sociedade. Desde que as pessoas estejam saudáveis e felizes com o corpo delas, o peso não vai passar de um número, o importante é o que você pensa quando olha para o espelho. Você está feliz?

“Beleza não é sobre ser magro ou gordo. É sobre ter confiança de se achar bonito sendo do jeito que você é”

Vivian Kim.

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8 comentários em “Um Problema de Peso na Coreia

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  1. Concordo!
    Não há espaço pra tipos diferente de corpos na Coreia!
    Eu estou morando aqui e não consigo achar bonito uma menina com cara de fome, é diferente de meninas naturalmente magras, elas ficam passando fome pra ficar daquele jeito, as pernas são muito finas com saltos enormes, dá mo medo delas cairem e se quebrarem todas XD

    Muito bom o texto! Queria ver um sobre homossexualismo e feminismo na coreia, eu perguntei pra alguns coreanos e eles falam que odeiam gays e que eles deviam sumir do mundo, eu fiquei muito chocada. Sobre o feminismo, eu com meu namorado, nunca sou atendida antes dele falar, mesmo que eu peça pra nos dois, os garçons sempre esperam a palavra final dele. Nós participamos num café de coreanos que estavam aprendendo inglês e o assunto era cirurgia plástica, e eles perguntavam ao meu namorado se ele DEIXARIA eu fazer se eu quisesse, ficaram chocados quando ele disse que essa decisão cabe apenas a mim e falaram que ele era liberal DEMAIS.

    1. Sim! Eu acho mais bonito a menina (e o menino também, todo mundo) ter CARNE! Ter coxa, ter panturrilha, ter a gordurinha do tchau no braço, ter bochecha~ do que ver a ondulação do osso da pessoa sob a pele.
      Fico feliz que tenha gostado! Obrigada pelas sugestões também, vou tentar fazer uma postagem sobre esses assuntos no futuro, recolher material e opiniões/experiências como a sua pra poder informar bem o pessoal. ;D Como eu não tenho namorado, ainda não enfrentei nenhuma situação assim, então não posso falar muito por experiência própria, mas por observação e pelas minhas amigas coreanas, já dá pra ficar triste que é outra coisa que a Coreia precisa dar um jeito. (E o Brasil mais ainda, já que aqui é mais um problema moral, e no Brasil, além do problema moral, as mulheres ainda correm risco de vida diariamente.)
      Obrigada novamente, e espero que goste dos futuros posts também! ♥

  2. Concordo plenamente com o que foi dito.
    É assustador ver como alguns idols mudam tanto a aparência em um período tão curto…
    Adoro Hello Counselor, e queria saber, que episódio é esse?

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