Homossexualidade na Coreia do Sul

안녕 안녕 여러분!!~ ♥

Engatando no assunto de dar orgulho e repulsa ao mesmo tempo, da propaganda da O Boticário para o Dia dos Namorados, onde o orgulho vem da posição da empresa de lançar um comercial inocente e com uma mensagem forte, que abraça todas as formas de amores, e a repulsa vem da reação dos defensores da dita “família tradicional brasileira” com um recheio de preconceito; vim falar sobre a homossexualidade na Coreia do Sul. 

Espero que compreendam sempre que meu blog é um blog pessoal, compartilhando minhas experiências, opiniões e ideias e, eventualmente, em posts como esses, conhecimentos baseados em pesquisas na Internet e depoimentos de terceiros. Vocês sempre podem acrescentar conhecimento e me corrigir nos comentários, ou concordar e discordar. ♥

Peço desculpas também se o post não englobar o assunto como um todo, mas ele abrange tantas possibilidades de assunto que eu preferi dar um apanhado geral que possa despertar seu interesse para buscar mais informações, ou simplesmente deixa a par da situação quem nunca procurou saber sobre.

A Coreia transpassa a condição de um país super conservador, e batalha para manter esse posicionamento. Com uma sociedade baseada nos ensinamentos do Confucionismo, acreditou-se por muito tempo que os homossexuais desordenavam a ideia dos laços da família, indo contra a ideia da religião — que podemos simpatizar com a situação no resto do mundo, que condena a homossexualidade baseada na Bíblia. Por isso, mesmo com o passar dos tempos e evolução da sociedade, ainda ficou enraizado na população o sentimento de rejeita aos homossexuais.

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Lema da Parada Gay na Coreia, em 2014

Por causa da perseguição psicológica e moral mais do que física, como vários dos preconceitos na Coreia, é muito mais difícil alguém se assumir publicamente, seja em escala nacional ou familiar, fortificando o cartão postal de sociedade “livre de erros” que a Coreia se esforça em manter. O que implicou também em onde a culpa foi jogada: nós, estrangeiros. Os mais radicais dos coreanos dizem firmemente que foram os estrangeiros que trouxeram a ideia de homossexualidade pro país, outros falam que não existem tais pessoas aqui, mas muitos parecem ignorar o “passado homossexual” da Coreia do Sul.

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Durante a Dinastia Silla, o Hwarang (grupo de elite formado por homens) eram os guerreiros de elite que tanto combatiam um inimigo em comum, como cuidavam da população para melhoria do poder nacional. Várias poesias da época foram interpretadas posteriormente como o conto da relação com os guerreiros Hwarang com outros homens.

Ch’oyong

Brincando na luz da lua da capital
Até a manhã vir
Eu volto para casa
Para ver quatro pernas em minha cama
Duas pertencem a mim
De quem são as outras duas?
Mas o que era meu
Foi tomado de mim
E agora?

Durante a Dinastia Joseon, a existência do grupo de performances Namsadang fortificou ainda mais a ideia de homossexualidade na Coreia, onde esse grupo de jovens que se vestiam de mulheres e tiravam sarro dos nobres apresentavam-se para aldeões. Embora as danças e atuações rendessem um bom dinheiro para eles, a principal atividade era a prostituição, com homens das aldeias.

Todas essas atividades, em conflito com o Confusionismo, foram deixadas por baixo dos panos e tão logo ignoradas para muitos coreanos. Acredita-se que a Coreia pode sim aceitar cada vez mais a comunidade homossexual, porém, para um país que até mesmo a ideia de se assumir é novidade, o caminho pela frente é longo. Berlim, considerada a capital gay da Europa, antes, também condenava e temia a homossexualidade tanto quanto a Coreia do Sul hoje, então há esperança.

Portão de Brandemburgo, em Merlim, em homenagem à comunidade LGBT
Portão de Brandemburgo, em Berlim, em homenagem à comunidade LGBT

De alguma forma, há uma parcela de mudança que já está acontecendo na Coreia, com beijos gays sendo mostrados na televisão — e criando o mesmo rebu que um beijo gay em novela brasileira. Park Wonsoo, prefeito de Seul, também levanta a bandeira e defende fielmente a comunidade gay, tendo como uma de suas metas que a Coreia do Sul seja o primeiro país da Ásia a legalizar a união homoafetiva. Ter um pé na política apoiando tais direitos já é um avanço maior do que podia se pensar em mil novecentos e bolinha, mas ainda tem muito chão pela frente.

Em uma pesquisa feita em 2013 pelo Pew Research Center, 71% dos coreanos nas idades entre 18 e 29 anos expressaram que a homossexualidade deveria ser aceita socialmente. Infelizmente, o número abaixa drasticamente se for considerar todos os entrevistados, expressando 31% de aceitação, contra 60% de aceitação no Brasil, mas isso prova que os jovens sul-coreanos estão mais aptos a constituir uma sociedade mais livre de preconceitos.

Entrando no mundo do entretenimento, batemos de frente com um tabu maior ainda, pois tratando-se de pessoas públicas, a Coreia se torna ainda mais conservadora: eles não podem deslizar uma vez só, pois não apenas a mídia, mas os próprios espectadores — muitas vezes os próprios fãs — estão sempre prontos para julgar e apontar com dedos afiados.

Em 2008, o ator e modelo Kim Jihoo cometeu suicídio após a enorme pressão e resposta negativa ao ter se admitido gay publicamente. Afetando até mesmo sua carreira, onde as agências estavam cancelando seus trabalhos e onde ele trabalhava se recusavam a renovar seu contrato, o ator tirou sua própria vida cinco meses após a revelação.

Jang Chaewon, celebridade transsexual, cometeu suicídio no mesmo mês que Kim
Jang Chaewon, celebridade transsexual, cometeu suicídio no mesmo mês que Kim Jihoo.

Para mostrar um lado diferente da história, vou listar alguns casos que podem encher nossos corações de alegria e fazer respeitar ainda mais alguns artistas, que mostraram seu apoio pela luta contra a discriminação, sem realmente se importar se isso resultaria em uma repercussão negativa aos olhos conservadores da Coreia do Sul.

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Jo Kwon, quando performou Priscilla, respondeu aos comentários negativos sobre seu papel (um personagem gay) na peça.

Ok. Priscilla é um musical sensacional e, como vocês sabem, eu atuo como um personagem que, por acaso, é gay. Eu fico triste de ver a ignorância em alguns comentários que pessoas com mente fechada deixaram em minha página, mas eu estou comprometido e amando esse papel, e orgulhoso de fazer parte deste projeto incrível! Vejo vocês no show!

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Jonghyun, do SHINee, alterou a foto de profile do Twitter com um dos cartazes de um protesto que lutava contra a discriminação no país. Por causa da atenção que chamou, Jonghyun mandou mensagens para o autor do cartaz em privado, que mais tarde foram reveladas por ele, um estudante transexual, para mostrar o apoio que Jonghyun oferecia para a causa.

Estou mandado essas mensagens por medo do estrago ou atenção que eu causei a você por meu tweet, que você provavelmente não queria. Eu te apoio. Como um artista, como minoria em uma definição diferente que lida com o público, eu sinto um grande senso de perda nesse mundo, onde não admitimos as diferenças. Claro, isso não pode ser comparado com seu sentimento.

Eu apoio seu grito com peito cheio que diferença não é algo errado. Eu não acho que você é alguém que precisa de consolo dos outros, ou preocupação. Você é mais forte que todos. Desejo saúde e um bom final de ano.

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Junsu também respondeu sobre os fãs questionarem se ele era gay ou não, após vê-lo vestido de mulher em Tarantallegra, onde ele respondeu;

Eu não sou gay, mas por outro lado, eu me sinto bem por ser chamado assim. Não importa se eu sou gay ou não, poder mostrar uma imagem diversa para o público é absolutamente um plus para o artista.

Heechul, um dos ídolos que menos se importa em como suas palavras irão afetar sua imagem, sobre o casamento do diretor de filmes Kim Jo Kwangsoo com seu namorado de nove anos, Kim Seunghwan, fez uma declaração sobre quão simples é a percepção de amar alguém.heechul1

Isso chamado amor… Eu falei para meus dongsaengs… Isso chamado amor, é amor entre duas pessoas. Se você se preocupar demais com o que está o seu redor… Claro, seus pais, amigos e irmãos podem falar ‘Eu apoio vocês’ ou ‘Isso não vai ser bom pra você’, mas se você se importar demais com o que os outros falam ou com o que você lê na Internet, e acabar terminando seu relacionamento… É uma pena. Então, apenas se importe menos.

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Donghwan, do Shinhwa, que também já atuou em musical como um personagem transsexual, falou abertamente sobre o assunto, defendendo essa parcela discriminada da população.

Eu sou heterossexual e não posso entender completamente os homossexuais, mas eu sei com certeza que a homossexualidade não é uma doença, nem tóxica. Não precisa de medicamento ou tratamento. Homossexuais são pessoas que, desde que nasceram, têm vivido uma vida difícil, sem que outros possam entender.

Eu poderia seguir em frente com mais e mais depoimentos, exemplos e leves dicas de ídolos que apoiam LGBT, de CLGlam, até Rap Monster e JYP. ♥

Vamos torcer que, em um futuro próximo, não só mais artistas possam confortavelmente falar sobre isso, como Hong Seokcheonprimeira celebridade a se admitir gay publicamente — e Harisucantora, modelo e atriz transsexual  mas estudantes, trabalhadores, jovens e idosos que vivem dia após dia tendo que esconder uma natureza que lhes pertencem, também possam acordar todos os dias sabendo que podem ser eles mesmos, e que ninguém irá julgá-los.

E eu desejo isso para o mundo todo, não apenas para a Coreia do Sul.

Quem quer ver alguns filmes coreanos sobre o tema, podem procurar por esses títulos:

  • 친구 사이? – Just Friends?
  • 헬로우 마이 러브 – Hello My Friend
  • 쌍화점 – Frozen Flower
  • 후휘하지않아 – No Regret
  • 왕의남자 – The King & The Clown
  • 번지점프를 하다 – Bungee Jumping of Their Own

“Eu preciso provar inocência. Eu vou lutar, não importa quão forte o outro seja. Mesmo que isso signifique que eu vá quebrar. Eu vou provar que gays nesse país não deveriam se calar e ser tratados como escória.”

Hong Seokcheon

Fontes:

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11 comentários em “Homossexualidade na Coreia do Sul

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  1. Adorei a matéria *-*
    Mas acho que no tópico do jonghyun é A transsexual e não O transsexual (se eu não estiver enganada)

    1. Como eu li a matéria em inglês, eu não achei informação se era O ou A. Vou deixar o texto assim por enquanto, se você de repente achar a informação, pode me avisar aqui! Também vou procurar mais a fundo. ♥ Obrigada!~

  2. Sua abordagem, apesar de curtinha (quero livros e enciclopédias do assunto, fasfavor), foi muito sensível e didática :)
    E apesar de já ter lido bastante sobre o assunto, e de já conhecer o posicionamentos de alguns ídolos, me escorre uma lágrima de felicidade de vê-los defendendo publicamente alguma coisa que acreditam, apesar da enorme pressão que sofrem para ficarem calados (não só sobre esse assunto, mas muitos outros, até proibidos contratualmente) ♥

  3. Annyeong! Estou impressionada com a sua matéria! Foi tão amorzinho <3 <3 e eu quero, mais do que tudo, que a homossexualidade não seja retratada de uma forma ruim, afinal, é totalmente normal e é uma forma de amor como qualquer outra. Não se deve fazer mal a outra pessoa por quem ela ama ou quem ela é.

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