COMPRAS NA COREIA: OS PROBLEMAS QUE TIVE.

DISCLAIMER: Esse não é um texto para “revelar uma Coreia ruim.” O título podia ser, facilmente, aplicado ao Brasil, ou à sociedade como um todo, porque é uma realidade de todos, em todos os países, em todos os cantinhos do mundo. Só quero compartilhar minha experiência, pois sei que muitos vão se identificar ou pode vir a ser um problema que você enfrente se quer visitar a Coreia.


Muita gente me pergunta sobre comprar roupas na Coreia sendo “acima do peso”, e ao invés de ter respostas fragmentadas nas redes sociais, decidi fazer esse post contando sobre minha experiência. Nunca compartilhei esse trecho da minha vida na Coreia publicamente. Contei para um ou dois amigos mais próximos e tentei lidar como podia com a situação, e foi um momento muito conturbado, atrelado à solidão emocional de estar longe da família e de quem podia me confortar, e à pressão dos estudos.

Pra começar a história, eu tenho que voltar uns anos. Eu tenho 1,72cm e a partir dos 18 anos eu fui perdendo peso gradativamente sem esforço, até chegar aos 52kg. Pra mim, era horrível e me preocupava secretamente. Lembro nitidamente de ir até a farmácia próxima a minha casa semanalmente para me pesar e me assustar com quilos sumindo. Evitava usar blusas regatas por causa da proeminência dos ossos da minha clavícula e ombros, e minhas calças não paravam na cintura. Descrevendo, vocês podem estar imaginando uma aparência bem mais exagerada do que era, e talvez não estivesse tão ruim, mas no meu universo estava, e me incomodava. Por mais que eu comesse (e olha que minha alimentação estava longe de fitness saudável frutas e verduras), o peso não mudava, então “aceitei” e convivi com isso.

Quando cheguei na Coreia, em agosto de 2014, 24 anos, ainda com o mesmo peso, já não pensava muito nisso. Não lidei com muitas compras de roupas nos primeiros meses porque não sou de comprar roupa e tinha o suficiente que trouxe do Brasil comigo. Depois de uns dois meses, notei que um dos meus shorts estava mais apertado que o comum, mas ainda servindo. E ele continuou a ficar apertado, cada vez mais, e mais, e mais, até não servir. Acreditei que muito se devia ao fato dos meus hábitos alimentares terem mudado completamente desde que cheguei na Coreia; ao consumo de carboidratos (porque aqui se consume muito arroz, coisa que eu não comia no Brasil), à quantidade de comida em si na refeição, mas eu não ligava do short não servir em mim, porque eu sai dos 52kg para os 62kg e estava extremamente feliz!

Só que não parou por aí.

Os números não paravam de subir, e eu comecei a ficar mais assustada do que feliz. Novamente, assim como quando eu não fazia nada para perder peso tão facilmente, eu não fazia nada para ganhar peso tão descontroladamente. Quando nada mais além de uma calça jeans com elastano servia em mim, fiquei com medo de ser algo mais sério, até que o medo afetou meus hábitos alimentares e eu passava o dia na base de chá verde e pepinos, e ia pra academia no fim da tarde. Algumas semanas eu entendia como estava sendo irresponsável fazendo “dietas” que tanto recrimino, e outras semanas eu voltava pra ela.

Chegou um momento que eu precisava ter mais do que uma calça. Foi quando fui com minha amiga para o underground mall de Eunhaendong, em Daejeon, na esperança de achar uma calça que me servisse. A esperança já era muito pequena quando todas as calças em exposição mais pareciam lojas de roupas infantis, com números tão pequenos e limitados que eu não me dava ao trabalho de perguntar. Chegamos em uma loja exclusivamente de calças, grande, que aparentava ter mais opções. Inconscientemente, fui direto para a área masculina, quando a atendente me abordou “Essas calças são para homens,” e eu respondi, sorrindo, “Eu sei, mas acho que as calças femininas não vão servir em mim.” E ela, friamente, me olhou dos pés à cabeça para dizer “Nessa loja não tem calça pra você.” Eu engoli seco e suspirei, voltei meu olhar para a arara das calças masculinas e continuei procurando um número adequado para mim, quando ela repetiu “Nada vai servir em você.” Pasma, não consegui segurar minha frustração quando devolvi uma das calças agressivamente para a arara e fui embora.

Em outras lojas eu ainda não me atrevia entrar, as que eu entrava as pessoas não eram tão ríspidas como a atendente da primeira loja, mas já me recebiam com o “Com licença, acho que não temos calça para você.” Não, eu não estava tão exageradamente acima do peso como a história faz parecer, mesmo com os 17kg a mais do meu peso original, mas as pessoas me recusavam o produto. Eu olhava as coreanas com mais peso que eu, me perguntando onde elas compram roupas, como elas lidam com isso, porquê não estávamos todas juntas derrubando as araras e fazendo uma revolução. Nessa minha busca, uma única loja foi meu conforto, onde eu consegui comprar uma bermuda masculina e o atendente foi super solícito, me ajudando a encontrar algo que me servisse. “Ah, você é da América Latina??  Os números femininos na Coreia não servem mesmo em mulheres de lá, eu devo ter uma calça masculina que dê, você se importa?”

Fiquei contente de ter duas calças pra usar pelo menos, mas a calça que ainda me servia não estava aguentando o desgaste e as coxas grossas, até que eu tive que começar a comprar blusas longas, que passassem da coxa, para esconder os rasgos e continuar usando a calça, já que estávamos no inverno e eu não podia mais usar a bermuda. Eventualmente, em lojas internacionais com números mais abrangentes como UNIQLO e H&M calças novas. Ainda passando por uma vergonha invisível de ter que pedir um número maior, porque o maior que eu peguei não servia.

Da mesma forma que o peso veio, ele foi embora, em um período de uns oito meses, me convencendo de que foi uma reação do meu corpo à mudança repentina dos hábitos alimentares e afins. Felizmente, não voltei para a casa dos 50kg que ainda me assombrava, mas voltei a um peso com o qual eu estava confortável, segura e saudável. Ainda assim, eu tenho mal estar passando perto das araras de calças em qualquer loja, isso quando passo por elas.

Agora… o que me incomodava, mais do que o número “73” na balança, era saber que não tinha roupa pra mim. O que me incomodava não era estar engordando (não a estética em si, já que eu queria engordar desde sempre), era saber que não iriam considerar meu corpo como um que “merecesse” uma calça. Isso não é um problema exclusivo da Coreia, porque a gente vê muito textão na internet reclamando que as lojas simplesmente ignoram a variedade de tipos físicos e só atendem majoritariamente uma parcela específica da população, e padrões de beleza, seja quais forem, são forçados em qualquer contexto social.

Porém, visando que o público que lê meu blog e me acompanha são brasileiros interessados em vir para a Coreia, eu senti a necessidade de contar esse episódio para alertá-los de uma coisa: não se sintam mal se nada servir em você na Coreia. Eu já expliquei neste texte sobre gordofobia na Coreia, que a numeração coreana não apenas é diferente da nossa como o “gordo” aqui é, bruscamente, o nosso tamanho “M”. Dá pra achar sim calça com números maiores, mesmo que não com tanta abundância como os números que, para nós, são entre o 32~36, e essa experiência que compartilhei foi de quando eu morava em Daejeon — aqui, em Seoul, têm mais opções. Por fim; essa é minha experiência, e uma experiência isolada, eu tive ótimos momentos fazendo compras na Coreia (talvez não de calças de novo hahahaha). E muito, muito importante: os coreanos não vão te destratar por causa do seu físico. Claro que essa minha história conta com a participação de gente rude, mas também contou com gente solícita e gentil! A gente vai cruzar caminho com gente ruim em qualquer momento da vida, e em qualquer país.

PARTE INSTRUTIVA DO POST:

Se você veste +42 (calça) e quer vir pra Coreia, eu indico não comprar calças em underground malls (complexos de loja no subsolo da cidade); faça a festa com blusinhas e vestidinhos e tudo mais, que esses você não deve ter problema. A Coreia ama blusas largas! Vá à lojas como Forever21, H&M, UNIQLO: lojas não-coreanas, que, muito provavelmente, vão ter uma variedade maior de números de calças. Se você não estiver passando por um momento de desconforto quanto ao seu peso, pode ir se arriscar nas lojas coreanas e escavar algumas numerações maiores, prepare-se para se desapontar ou para se surpreender!

E se alguém fizer algum comentário desnecessário sobre você, apenas olha assim pro embuste:

Jungkook clothes gif

Eu geralmente não conto sobre coisas tão íntimas, mas achei interessante compartilhar com vocês. Em quatro anos de Coreia, eu posso escrever centenas de posts sobre experiências maravilhosas comprando roupas aqui, mas por esse ser um episódio bem específico e com a possibilidade de mais pessoas compartilharem suas experiências nos comentários, eu decidi postar! Acreditem, esse texto está nos rascunhos desde 2016.

Té mais!!!

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Um comentário em “COMPRAS NA COREIA: OS PROBLEMAS QUE TIVE.

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  1. Nossa, sempre tive dúvidas quanto aos tamanhos de roupa na Coréia! Bom saber, pois uso 42, já sei onde ir e o que esperar quando estiver por aí. Umi, obrigada por compartilhar suas experiências, boas ou ruins, mas reais! Adoro seu canal, continue sempre essa pessoa fofa que vc é!

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